• Ameaça de tragédia pode afetar saúde mental de crianças e adolescentes

    Situação vivida por moradores de cidades com ameaça de rompimento de barragem pode deixar reflexos na saúde mental O prazo para que a população jusante das barragens ameaçadas de rompimento retornem para casa é 2020. O tempo é necessário para a realização de obras de contenção, segundo informou a mineradora Vale nesta quarta-feira, 25 de setembro. Em função dos riscos de rompimentos dessas estruturas, 1,2 mil pessoas foram retiradas de suas casas em Brumadinho, Barão de Cocais, Macacos e Itabirito e outras 50 vivem em moradias improvisadas. No entanto, a mudança na rotina de quem teve que deixar o lar e a ameaça constante de que uma tragédia aconteça podem deixar reflexos na saúde mental, especialmente de crianças e adolescentes. De acordo com a professora do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG, Maila de Castro, a espera de que a barragem possa ou não se romper gera um ambiente ansiogênico. “É uma situação geradora de uma ansiedade muito grande porque você fica esperando que a catástrofe aconteça. Se não são desenvolvidos mecanismos para evitar essa catástrofe, as pessoas vão ficando com medo e com cognições negativas a respeito das coisas”, aponta. Crianças e adolescentes, consideradas públicos vulneráveis por estarem em processo de desenvolvimento cerebral, podem apresentar sinais de ansiedade como queixas e dores inespecíficas, bem como alterações no desempenho escolar. Também está associado a esse quadro o medo de que aconteça alguma coisa com os pais. Fora de casa A saída de casa em contextos de tragédia também está entre os fatores de maior vulnerabilidade para o desenvolvimento de doenças a exemplo da depressão. Nessas situações, sair de casa representa a perda da comunidade, identidade e memória do indivíduo. “No contexto rural, por exemplo, as pessoas têm uma sensação de pertencimento, de auto apoio, uns dos outros”, conta Maila. Mesmo em crianças pequenas, essa saída de casa é percebida. Apesar de não compreenderem os sinais de mudança de maneira mais objetiva, elas têm outra forma de observar o mundo. A perda de coisas como os brinquedos, quarto e amigos, evidencia essas transformações. Os impactos de episódios traumáticos Após uma tragédia, crianças e adolescente podem apresentar, a curto prazo, sintomas de luto, no caso da morte de entes queridos. Com o tempo, pode ser observado sofrimentos como depressão, transtornos de ansiedade e estresse pós-traumático. Em estudo desenvolvido em Mariana, por meio do projeto Prismma, após o rompimento da barragem de rejeitos de minério, 39,1% crianças e adolescentes entrevistados apresentaram sintomas positivos para depressão. O mesmo valor foi encontrado para os casos de transtorno de ansiedade. A pesquisa também apontou que 82,9% das crianças e adolescentes apresentaram sintomas de transtorno de estresse pós-traumático. Maila também explica que os pequenos também podem refletir o comportamento dos pais. Por essa razão é possível que “os sintomas depressivos da criança estejam associados ao sintoma depressivo do pai ou da mãe, o que chamamos de herança transgeracional”. Como lidar? Para auxiliar crianças e adolescentes que estão vivendo situações de ameaça de tragédia como Barão de Cocais ou que viveram episódios traumáticos como em Mariana e Brumadinho, é preciso que sejam observadas com cautela. “Mudança no comportamento, alteração no rendimento escolar e sintomas físicos muitas vezes inexplicáveis precisam ser analisadas com cuidado”, aponta Maila. Brumadinho sob estudo Um estudo sobre os impactos do rompimento da represa de rejeitos da Vale na saúde da população de Brumadinho será feito pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) com participação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O levantamento vai durar 20 anos. Os dados serão coletados em entrevistas nas residências de quatro mil adolescentes e adultos com idade a partir dos 12 anos, tanto das áreas atingidas diretamente pela lama quanto de outras partes do município. Dados de uma amostra menor, formada por crianças de 0 a 4 anos de regiões diretamente afetadas, também serão coletados para acompanhar o desenvolvimento neuromotor e neurológico. *Marcela Brito – estagiária de Jornalismo Edição: Karla Scarmigliat Fonte: Faculdade de Medicina UFMG, via Projeto Manuelzão

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