• Para moradores expulsos de suas casas em Minas Gerais, “a Vale é a maior terrorista do mundo”

    Estamos vivenciando momentos de "terrorismo", pós rompimento em Mariana e mais recente em Brumadinho, na qual completou-se 6 meses do crime. Estamos certos de que não foi acidente é sim CRIME. Crime na qual consideramos um crime continuado devido as violações contantes que a mineradora dentro dos territórios e articulações para se mantem no controle e causando desordem e afetações para/ com as famílias. Como Gabinete de Crise- sociedade Civil, GCSC - plataforma de Justiça Socioambiental, tentamos contrapor as falsas narrativas que a mineradora traz na grande mídia. Assim o nosso objetivo é gerar conteúdos e matérias sobre a verdade sobre como vivem as famílias e populações pós rompimento. Neste contexto, rebemos denúncias, pedidos de ajuda visto que a criação deste GCSC é para compreender e tentar ajudar as populações que estão sofrendo essas violações. O medo e pânico continuam a se espalhar pelos municípios mineiros e principalmente pelas populações e comunidades que vivem em conflitos ambientais pela mineração HÁ ANOS. Citamos aqui: Barão de Cocais, Macacos, Congonhas, Nova Lima, Itabira…mais de 30 barragens da empresa foram interditadas em todo o estado e centenas de pessoas foram expulsas de suas casas. O caso de Barão de Cocais é o mais emblemático. Por meses e até o momento, a Vale anunciou uma verdadeira contagem regressiva para o desmoronamento completo do paredão da mina de Gongo Soco, que poderia ocasionar o rompimento da barragem em frente. O prazo passou e a barragem não rompeu. Porém, expulsos de suas casas, moradores sentem na pele os interesses da mineradora em terras na região. Não é por acaso: somente em Barão de Cocais a Vale e suas subsidiárias tem 60 processos registrados na Agência Nacional de Mineração, entre pesquisa, requerimento e concessão de lavra. A fotógrafa Ísis Medeiros acompanhou de perto as expulsões realizadas em Barão de Cocais e comunidades rurais que fazem parte da cidade, como André do Mato Dentro. Ali, cara a cara com os moradores, fotografou, apurou e reuniu depoimentos para a série “Evacuados”, que publicamos apenas em parte aqui. Você pode e deve conferir a série toda, publicada aos poucos, na sua página no Instagram. Isis, que nasceu em Ponte Nova (MG), trabalha como fotógrafa documentarista e desenvolve projetos autorais voltados para a defesa dos direitos humanos. Em 2018 foi uma das fundadoras de “Fotografia pela Democracia”, grupo nacional de fotógrafos em defesa da democracia e dos direitos humanos no Brasil. Os relatos impressionam pela franqueza, pela sabedoria popular, pela ciência dos interesses enormes que os cercam e, claro, carregam o peso de um povo que se acostumou a viver 24 horas com as ameaças concretas da mineração. Leia, abaixo, um dos depoimentos colhidos por Ísis e o ensaio de fotos. José Mendes de Carvalho, 63 Santa Bárbara Resistência – Comunidade André do Mato Dentro “NÓS TEMOS QUE RESISTIR! A VALE não tá comprando nada não. Eles tão chegando e invadindo os terrenos. Eles falam que essas casas aqui não tem morador, que o povo vem aqui só passar final de semana, dizem que é sítio. Eu nasci e vivi a vida toda aqui, eu tenho medo que eles encurralem de um lado e de outro e me deixem sem saída. Aqui eu planto meu café, eu não preciso comprar alimento. Fazemos tudo em conjunto. Se alguém chegar e pedir um pouquinho de café, nós temos. No “Seu Gomes”, o vizinho, se você tiver dinheiro pra comprar o queijo tudo bem, se não tiver, vai poder levar assim mesmo. Na rua não é assim. Lá até a informação é na base do dinheiro, a gente na roça é mais tranquilo. Eu tenho medo sobre a questão da água. Todo mundo usa as águas de Santa Cruz, onde a VALE vai entrar, nas terras do vizinho. Aqui a água é cristalina e circula livre o dia inteiro, 24 horas direto. Ainda é muito bom, todo mundo que vem não quer voltar, muita gente vem de longe só pra entrar no rio. Agora, se jogam essa lama no rio como faz? Acabou com a água acabou com nóis, gente! Nós somos guardiões da terra e das águas daqui, vamos resistir. Eu não vendo aqui, mas se me oferecem 100 mil o que eu faço? Não consigo nem comprar um terreno na rua. Agora se cair na rua, tem que comprar água. As vezes um dia tem e no outro não. Lá eu vou ficar num metro quadrado, na prisão. Aqui eu posso ficar em casa, no quintal, no curral, mexendo e lá? Vou ficar em hotel igual o pessoal do Socorro. Gente que tinha espaço, criação e agora nem sabem onde levaram, ninguém sabe onde tá quintal, nada. Lá, quando você precisar comprar uma banana, vai ter que ir no supermercado comprar, um molho de couve, um molho de cebola…” FONTE: Observatório da Mineração, 2019.

    Voltar Data: 25/07/2019